Alegria não pode virar tragédia

Uma decisão ocorrida dia 18 de junho no Superior Tribunal de Justiça deve alertar quem promove eventos coletivos, sejam manifestações, espetáculos artísticos e desportivos ou mesmo bailes em locais fechados como danceterias. Alerta também às autoridades a quem compete sua fiscalização.

Os magistrados entenderam que os proprietários e dois músicos que tocaram na boate Kiss da cidade gaúcha de Santa Maria apresentaram evidências suficientes de dolo eventual – quando se assume o risco de matar – pelo incêndio ocorrido no local há seis anos quando morreram 242 jovens e outros 636 ficaram feridos. Os réus, portanto, irão a júri popular. A enorme quantidade de pessoas no recinto fechado não foi controlada; os músicos usaram fogos de artifício durante a apresentação que incendiou materiais do teto, alastrando o fogo e produzindo espessa fumaça; os seguranças bloquearam a saída para ninguém sair sem pagar. Muitos outros responsáveis ficaram distante das punições: alguém fiscalizou, antes, as condições de segurança? Foi verificada a venda de ingressos de acordo com a lotação permitida? Havia algum plano básico de segurança, incluindo funcionários treinados? Tragédias geralmente decorrem da soma e combinação de pequenas falhas que eclodem com um fator-gatilho.

Multidões, qualquer uma, da Marcha com Jesus à Parada Gay, dos jogos de futebol às danceterias, embutem elevado poder de tragédia. Um incêndio em papéis picados durante o clássico River Plate e Boca Juniors na Argentina em 1968 provocou uma correria que resultou na morte de 74 torcedores. Em 1964 o juiz anulou um gol do Peru, contra a Argentina, o que gerou um tumulto que provocou a morte de 318 torcedores. Em 1989 na final da Copa da Inglaterra a superlotação do estádio acabou em tumulto que levou à morte de 96 torcedores do Liverpool; desde então foram eliminados os alambrados dos campos ingleses e a Fifa adotou a abertura de acesso para o gramado para esse tipo de emergência.

Na Inglaterra foi editada lei que obriga a todos os estabelecimentos que promovem eventos a ter um responsável pela segurança, devidamente credenciado por órgão público, após treinamento padronizado pelo governo, como ocorre aqui para habilitar motoristas. Essa responsabilidade é sobretudo das prefeituras, a quem compete regular o funcionamento de estabelecimentos, das condições estruturais de segurança a procedimentos preventivos e de cuidados com emergências instaladas, inclusive em eventos artísticos e culturais. Mesmo eventos de fé e de alegria precisam de competente seriedade nas medidas de prevenção e essa é responsabilidade indelegável das autoridades públicas estaduais e municipais que devem se entender para planejar a segurança dos cidadãos nas cidades..

Um verdadeiro tiro no pé

De 1980 a 2000 houve grande expansão das lojas de venda de armas no Brasil. Os assassinatos cresciam à taxa de 8% ao ano e só tiveram a trajetória macabra contida com a Lei 10.826 de 2003 que criou severas restrições à posse de armas. As armas não foram proibidas, mas além dos integrantes das forças de segurança as demais pessoas só podem ter acesso à arma, se comprovada sua efetiva necessidade. Com essa lei, conhecida como o Estatuto do Desarmamento, os homicídios foram contidos e a trajetória interrompida poupou mais de 130 mil vidas.

Mas qual é o problema de se liberar a compra e porte de armas? Com esse tipo de ideia o Presidente Bolsonaro publicou um decreto, criando grandes facilidades para a posse e o porte de arma, estendendo indevidamente o entendimento de “efetiva necessidade” do artigo 6º do estatuto que, por ser lei, não pode ser alterado por decreto. O decreto prevê, entre outros absurdos, que todo advogado (mais de um milhão no país), motorista profissional (mais de 900 mil), político com mandato (65.193), moradores de área rural com mais de 25 anos (18 milhões) e até jornalistas que cuidam da área policial, têm direito automático à posse e porte de arma, independentemente de provar sua efetiva necessidade. Mais um absurdo? Cada cidadão pode possuir até quatro armas e comprar até cinco mil munições para cada arma, ou seja, no limite pode comprar 20 mil munições por ano.

Há quem acredite que com tanta gente armada os criminosos arrefeceriam suas ações, com a queda da violência. A grande quantidade de policiais que morrem em assaltos mostra como é falsa a ideia de que basta uma arma para evitar a violência. Num levantamento feito com ocorrências registradas em São Paulo, o Instituto Sou da Paz constatou que, nas pessoas assaltadas que estavam armadas, 70% acabaram tomando tiro. A arma, tão eficiente para atacar torna-se um peso quase inútil em mãos amadoras. E ainda leva perigo para dentro de casa.

Mas outro grave problema da expansão das armas é que uma parte delas acaba sendo perdida, furtada ou roubada e vai abastecer os criminosos que se pretendia reduzir. Em outro levantamento feito com 14 mil armas apreendidas de assassinos e ladrões foi verificada que 60% delas foram fabricadas no Brasil e, originalmente, vendidas legalmente, mas acabaram nas mãos de criminosos.

Podemos imaginar a caçada que os criminosos vão fazer, obrigando advogados, motoristas, matutos da roça a comprar quatro armas e 20 mil balas por ano para serem usadas em todo tipo de crime violento. É incrível que no decreto não constam quase medidas de controle de todo esse armamento como chip de identificação nas armas e marcação dos cartuchos para identificar o comprador. Não dá para entender por que quem colocou a bandeira da segurança como principal mote de campanha quis liberar armas e munição a granel..

Escolas mais seguras no país

A tragédia ocorrida numa escola na cidade de Suzano no último dia 13 de março nos criou especial consternação pela preocupação com nossos filhos e netos em suas escolas onde se supõe estarão protegidos e também pela dor solidária em relação aos parentes e demais crianças traumatizadas com a experiencia direta naquela escola.

Não faltaram, pouco depois das primeiras notícias, aqueles que se aproveitam do momento para firmar posições num momento de dor e de luto. Políticos compareceram ao local e outros, incrivelmente, aproveitaram para reforçar obsessiva campanha pelo rearmamento da população, afirmando que haveria alguma chance de a tragédia não ocorrer se tivesse algum funcionário armado. Uma situação semelhante ocorreu em 1996 na Escócia, parte da Grã-Bretanha, quando um atirador matou 16 crianças e uma professora de uma escola primária. O choque foi tão forte que no ano seguinte as armas de fogo foram banidas do Reino Unido. Lá ocorreram 29 homicídios em 2018, como se no Brasil, três vezes maior em população, tivesse 90 pessoas assassinadas ao invés das 60 mil mortes ocorridas. Aqui acha-se que a solução seria armar funcionários. Imagine-se que metade das quase 200 mil escolas do país tivesse funcionários armados, sem o treino devido, e se envolvendo nos habituais conflitos nas escolas mais problemáticas onde alunos afrontam funcionários e professores com frequência.

Mas, afinal, nossas crianças estão ameaçadas nas escolas? Tragédias com mortes violentas em escolas ocorreram oito vezes nos últimos 17 anos no Brasil, uma a cada dois anos em quase 200 mil escolas espalhadas pelo país, o que torna o fato, apesar de gravíssimo, raro o suficiente para não justificar medidas excessivas de segurança. Existem problemas de segurança nas escolas, mas de outras dimensões como os furtos de objetos e equipamentos das escolas – que um sistema barato de alarmes e câmeras resolve – ou problemas de afronta de alunos aos professores e o inferno do bullying em que poucos alunos atormentam e traumatizam colegas. Mas é claro que sempre é bom pensar num conjunto de medidas de segurança, a começar do controle de acesso por meio de uniforme ou crachá, vigilância de pátios, corredores e banheiros. As polícias civil e militar devem, através dos efetivos de cada distrito policial, vigiar as escolas e as vias de acesso aos estabelecimentos de sua área. É importante que as escolas estaduais e municipais adotem código de conduta da disciplina escolar e discutam com pais e alunos as regras de convivência. Nos EUA, por exemplo, é motivo de expulsão do sistema público aluno que introduzir armas e drogas e agredir professor. Nos ambientes de ordem e proteção serão sempre melhores as condições para a atividade educacional..

Administrar riscos ou sucumbir

Você está preparado para o desastre, ou seja, a consumação do pior? Quando falamos em risco, fazemos referência à combinação de dois fatores: 1) probabilidade de ocorrer um incidente e 2) consequências acarretadas pelo incidente. As consequências de um infarto, por exemplo, podem matar e a probabilidade de ocorrer vai ser mais elevada se a pessoa investir no sobrepeso, na falta de exercício físico, em dietas suicidas combinadas com uso abusivo de álcool e fumo, além de exposição ao estresse. Com algumas contas você pode avaliar seu risco (probabilidade x consequências) e decidir o que vale a pena.

Essa ideia simples de risco ajuda a entender riscos e tragédias empresariais. Nas empresas, caçar riscos e gerenciar os mais danosos deve ser uma obsessão porque colocar uma organização na UTI pode ser mais fácil do que se imagina. Que o digam a Varig, a PanAm, G.Aronson, Mesbla,TV Manchete etc.

A produção de minério de ferro na região de Brumadinho, Minas Gerais, representava 2% da gigantesca produção da Vale, mas poucos diretores poderiam imaginar o tamanho do impacto do rompimento da barragem, em termos financeiros, de perdas de centenas de vidas, de indiciamento criminal de funcionários, de comprometimento internacional de reputação. Só não foi pior que a maior de todas as tragédias empresariais, o vazamento de gás de uma indústria de pesticidas da Union Carbide, na cidade de Bhopal, na Índia, em 1984 quando morreram de imediato quase quatro mil pessoas e estimadas outras 16 mil mortes decorrentes. Mas fora os acidentes da natureza – como tsunamis e inundações – os demais decorrem de ação humana por estratégias empresariais equivocadas, falhas grosseiras de processos produtivos ou de manutenção e, principalmente, de falta ou inépcia de programas de gerenciamento de riscos da organização.

Empresas grandes, médias e pequenas sucumbem a crises o tempo todo, sejam de alimentos estragados, de recall de veículos com defeitos, acidentes com funcionários ou clientes, escândalos de diretores envolvidos com desvios financeiros ou com a corrupção de agentes públicos, como estamos vendo na Lava Jato com a dilapidação do patrimônio de algumas de nossas maiores empresas. Os ataques de criminosos que vem ocorrendo no estado do Ceará, coroa anos de investimentos equivocados e maus resultados na segurança pública que resultaram na crise atual. Governantes e empresários devem apreender a administrar o potencial de crise de suas áreas relevantes, pois há aspectos comuns que devem ser considerados. Primeiro que toda crise emite insistentes sinais de que está se desenvolvendo; segundo, as organizações devem monitorar indicadores de risco de suas áreas críticas e preparar planos de contingência para serem acionados em tempo hábil se os esforços preventivos fracassarem..

Um general no comando da segurança?

João Dória, governador eleito de São Paulo, escolheu o general da reserva João Camilo Pires de Campos para secretário da segurança. Dória havia sinalizado que escolheria um policial para a pasta, mas, como era previsível, assim que o nome de um delegado foi cogitado para o cargo começou a ventilar o mal-estar na Polícia Militar. O mesmo ocorreria se fosse indicado um representante da PM com previsíveis protestos entre os policiais civis. Esse é um dos problemas de termos duas corporações para cuidar do mesmo problema: controlar a violência. Por esse fundamento de racionalidade, em praticamente todos os países do mundo existe uma só polícia para cuidar do patrulhamento uniformizado e da investigação, com um só comando em todas as unidades.

No Chile, os Carabineros fazem as duas funções, relegando para uma polícia especializada a investigação de crime organizado; na França existem duas polícias, mas a Polícia Nacional cuida da segurança das grandes cidades e a Gendarmerie, militarizada e com 60 generais, faz todo o serviço policial nas pequenas cidades, rodovias e fronteiras. Nas polícias do mundo, seja a polícia municipal nos Estados Unidos, as polícias estaduais da Alemanha ou as polícias nacionais da França, o comando de todas as atividades policiais será dado, é claro, a policiais graduados de suas próprias instituições.

No Brasil o custo de termos duas polícias é altíssimo por duplicação de estruturas e por induzir baixa cooperação e até rivalidades explícitas que comprometem a eficiência do sistema policial. Com essa irracionalidade potencial a solução tem sido chamar alguém de fora da polícia para, ora vejam, dirigir as polícias. A direção da segurança pública pouco depende de conhecimentos jurídicos ou sociológicos. O sucesso dessa direção depende, fundamentalmente, de competência de gestão, algo que não se aprende nos bancos das faculdades sociais ou de direito.

Generais no Brasil são profissionais altamente preparados para gestão de problemas complexos, principalmente em contextos de crise, por razões óbvias. Além do preparo intenso, acadêmico e da vivência em contextos bastante diversos no país, oficiais só ascendem aos níveis mais elevados se provados em integridade em sua vida profissional e até pessoal, como é o caso do General Campos que assumirá a chefia das polícias paulistas. Tolice imaginar que o futuro secretário vá impor algum padrão de guerra nas polícias, pois seu preparo inclui sofisticada capacidade de identificar os problemas críticos de sua área de responsabilidade e definir os recursos e estratégias para resolvê-los. Não tendo as crises da maioria dos estados, a perspectiva para a segurança em São Paulo é bastante positiva, principalmente se o governo federal empreender as prometidas medidas de redução da impunidade..

 

Equívocos sobre a intervenção na segurança do Rio

Rio de Janeiro – Fuzileiros Navais participam de operação na favela Kelson’s, zona norte da cidade (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Com a intervenção na segurança do Rio de Janeiro criou-se uma situação inédita no Brasil, desde a edição da Constituição de 1988. O interventor poderá comandar, intervir, alterar tudo o que for necessário nos instrumentos institucionais da segurança: polícias civil e militar, bombeiros e setor penitenciário. Uma de suas primeiras medidas que nenhum dos governadores do Rio conseguiu: mandar recolher mais de três mil PMs que estavam em órgãos distantes do policiamento. Claro que o assunto foi controverso e surgiram interessantes considerações a respeito da intervenção:

1.”isso é uma inaceitável intervenção militar”. “Se fosse para intervir por que não designaram um civil?”. O interventor é militar, mas a intervenção não. É importante considerar que um general tem qualificações raras a um civil, como o planejamento e atuação em ambientes muito complexos, principalmente num contexto de grave crise de segurança que exige habilidade de comando.

2.”Se a crise persistia mesmo com um grande contingente de militares federais desde julho do ano passado de que adianta essa intervenção?”. Todas as operações anteriores eram travadas porque havia duas autoridades, o comando militar e o secretário da segurança. Com o interventor passa-se a ter um único comando que não precisa negociar com nenhuma estrutura da segurança.

3. O governo federal agora vai ter que intervir em vários estados como Ceará e Bahia onde há mais assassinatos do que no Rio? Ocorre que nesses estados, e em outros, há problema de ineficiências de gestão das polícias que não requerem tropas federais. A violência no Rio é mais complexa por ter centenas de comunidade submetidas ao governo paralelo dos traficantes e milicianos e enorme quantidade de armas de guerra nas mãos desses criminosos.

4. O ex-secretário do Rio Mariano Beltrame disse que o Estado deveria ter entrado com ações sociais logo após a instalação das UPPs para efeito maior de prevenção da violência, pensamento comum de vários sociólogos e especialistas em segurança. Vamos fazer um exercício mental: as ações sociais fariam os criminosos mudar de vida e procurar emprego? Os 95% de cidadãos de bem das favelas precisam dessas ações sociais para não virarem criminosos? Existem muito motivos para ações sociais em áreas violentas, mas elas não reduzem a violência. O Rio de Janeiro tem quatro vezes mais violência – o Ceará seis vezes – que São Paulo, porque aqui se investiu em qualificação e gestão da polícia. Quando a polícia faz bem o seu trabalho o crime cai e as agências sociais, inclusive comunitárias, têm mais resultados em suas ações..

 

O verdadeiro milagre de São Paulo

Em 1992 estava num sobrevoo de helicóptero levando o chefe da polícia da cidade americana de Baltimore para conhecer um pouco da realidade da cidade de São Paulo. Logo após o Aeroporto de Congonhas entramos pela desordenada Zona Sul da Capital. Um amontoado de casinhas com coberturas de laje e ruas improvisadas, serpenteando por bairros que foram se formando com muitas ocupações quase sem ordenação pública. Um caos urbano monumental com áreas de contrastes num território com a população do Uruguai. Assustado, o veterano policial apontou o dedo para baixo e me perguntou: “como policiar isso aí?”

Em 1991 a cidade de São Paulo tinha 9.646.000 habitantes, era uma das quatro maiores cidades do planeta e um enorme desafio para administrar a mobilidade urbana, a educação, a saúde, a poluição e, evidentemente, a segurança. Os dados estatísticos da época eram precários, mas 10 anos depois os dados da segurança se consolidaram num sistema que é mantido até hoje. E a comparação que fazemos desses dois momentos – 2001 e 2017 – nos revela uma espantosa diferença. Habituados a criticar a violência, até pela carga emocional associada aos eventos incansavelmente repetidos pela televisão, tendemos a ver esse tipo de problema sempre piorando de um ano para o outro.

Mas o que aconteceu? Em 2001 a cidade tinha registrado 5.174 assassinatos, numa proporção de 49,16 mortos para 100 mil habitantes. Em 2017, com 1,5 milhão de habitantes a mais, a cidade que completou 464 anos na quinta feira, chegou 777 homicídios, na proporção de 6,4 mortos por 100 mil habitantes. Uma queda de 86,98 %. Para fazer uma comparação: São Paulo, com 12 milhões de habitantes teve 777 assassinatos e o Ceará (9 milhões) registrou mais de 5.000; o Rio Grande do Norte, com 4 milhões de habitantes contabilizou mais de 2.500 mortes. O estado de São Paulo vem se descolando do resto do país em termos de redução da violência, ainda que esteja sofrendo da mesma legislação obsoleta. Claro que há enormes desafios em melhorar, mas não se pode deixar de reconhecer os resultados positivos e aqueles que os produziram. No seu aniversário de 464 anos São Paulo pode se orgulhar dos feitos de seus policiais, os principais responsáveis por esta destacada redução da violência, uma das maiores do mundo. Enquanto isso Baltimore registrou 56 mortes por 100 mil habitantes em 2017. E um lembrete: a cidade de São José dos Campos teve 231 homicídios em 2001, que caíram para 52 no ano passado, numa redução de 77,5%. Só no último ano a queda foi de 32%, uma das recordistas do estado. Sucesso por aqui também..

 

Você também sofre com a nomofobia?

O celular, como conhecemos hoje, com as facilidades de acesso à internet, de ouvir músicas, fotografar e compartilhar foi consolidado em janeiro de 2007 quando Steve Jobs lançou o primeiro iPhone. Os aplicativos geraram funcionalidades que estreitaram cada vez mais os vínculos das pessoas com esses aparelhos, como o Whatsapp, tão revolucionário na comunicação pessoal que foi comprado pelo Facebook por 22 bilhões de dólares.

O telefone celular e suas funcionalidades entraram em nosso cotidiano e mexeram com nosso estilo de vida, nossos interesses, nossas agendas e relacionamentos, nos levando a dedilhar entre duas e três mil vezes por dia a tela do aparelho. E a câmera, habitualmente focada no mundo exterior a nós, voltou-se para o fotógrafo, criando o narcisismo digital que, claro, precisava mais que um espelho do compartilhamento: olha onde estou, olha com quem estou, olha o que estou fazendo, olha o que estou comendo.

Pesquisadores já constataram que o uso demasiadamente frequente do celular altera a química do cérebro, podendo afetar as emoções, sono, ações impulsivas e até depressão. Também preocupante é a precoce entrada de crianças e adolescentes nesse mundo digital, onde muitos mergulham como se estivessem numa realidade paralela. Alguns pais “sem noção” entregam celulares e tabletes a crianças, sem critério e sem estabelecer quaisquer regras. É um instrumento perigoso para crianças. Excesso de horas ao celular, isolamento social e depressão são sintomas preocupantes em crianças e adolescentes e podem demandar ajuda de profissionais do comportamento (psicólogos e psiquiatras). Mães estão ficando preocupadas porque seus filhos ficam ansiosos por não receberem mensagens ou por deixar de se concentrar em suas tarefas escolares. Mas isso ocorre também com nós adultos que precisamos desaprender o uso excessivo do celular, um monstrinho cada vez mais colado em nós, disputando atenção com nosso trabalho, nossas famílias e amigos.

O medo de ficar distante do celular já tem até nome próprio, nomofobia, um tipo de dependência que gera inquietação e até irritação nas pessoas com a ausência do objeto. O médico Herbert Benson, uma referência em relaxamento mental, muito antes do surgimento do celular recomendava que o ser humano precisa se desligar diariamente de seu cotidiano para liberar o cérebro a inventar e descobrir. Pode ser uma meditação, uma hora de natação, um relaxamento com música ou mesmo uma oração concentrada. Essas atividades de elevação não admitem a presença do intruso celular..

 

‘Nudge’ da ordem e racionalidade

Imagine que você é administrador na área da saúde e queira promover a doação de órgãos através de declaração da pessoa ao preencher o formulário do RG ou da carteira de motorista. Existem duas frases a escolher, dependendo daquela que você imagina vai provocar mais adesão das pessoas. Frase 1: “quero doar órgãos”; frase 2: “não quero doar órgãos”. Você provavelmente imagina que as pessoas são racionais na escolha das alternativas e que a frase 1 acarretaria maior adesão de doadores. O comportamento humano não funciona bem assim. A prática mostrou que a frase 2 resulta em mais adesão, simplesmente porque as pessoas em geral preferem não tomar e anotar decisões psicologicamente desconfortáveis. Ou seja, não escolhendo, acabam concordando em doar.

O economista Richard Thaler ganhou o prêmio Nobel de economia de 2017 por suas ideias publicadas em livros e artigos demonstrando que a conduta das pessoas não é tão regulada por princípios de racionalidade. As pessoas não ponderam apenas alternativas racionais para escolher a opção que atendam melhor sua necessidade, mas são influenciadas por questões subjetivas. Um dos conceitos e instrumentos mais interessantes de suas ideias enfatiza a palavra nudge (pronuncia-se algo como nádji) que equivale ao popular “empurrãozinho”, ou aquela cotovelada gentil que você dá num amigo indeciso perante uma oportunidade. Os estímulos dos nudges podem ser do bem ou do mal”.

Um dos mais curiosos casos de nudge do mal foi observado numa experiência realizada na Holanda, mostrando os efeitos do estímulo da desordem no comportamento das pessoas: um envelope com 5 euros, com janela transparente, mostrando o dinheiro foi enfiado parcialmente na boca da caixa de correio em dois ambientes distintos: no ambiente com muro pintado e chão limpo 13% das pessoas pegaram o envelope e no ambiente com muro pichado e com papéis e cascas no chão foram 27% os que “roubaram” o dinheiro. O estímulo da desordem ao comportamento transgressor é tão forte que até as pichações e lixo na rua funcionam como nudge, encorajando pessoas a relaxar seu autocontrole e a contribuir para mais desordem, um passo para a instalação de crimes. Muitos prefeitos imaginam que contribuiriam para a redução de crimes em suas cidades, aumentando e armando sua guarda municipal para “enfrentar o crime”. As evidências são abundantes que ambientes, como os casos dos exemplos citados, bem administrados – retirando-se os estímulos do mal e incrementando os nudge do bem -, podem afetar positivamente o comportamento das pessoas..

 

Posturas e imposturas no debate da segurança

Jair Bolsonaro, pretenso candidato à presidência nas próximas eleições, tem dito coisas que muitos querem ouvir. Mas nem sempre o que querem ouvir é bom para o país. Um dos grosseiros equívocos é seu enfático apoio ao projeto que visa liberar a posse de armas. O discurso parece lógico: já que o governo não consegue garantir a segurança pelo menos vamos permitir à população se armar para sua própria defesa. O Brasil é um dos campeões do mundo em assassinatos e não estamos falando de ladrões que matam nos assaltos (5% das mortes), mas dos idiotas que matam uma única vez, simplesmente porque tinham uma arma para substituir o sopapo. As pesquisas feitas aqui no Brasil por técnicos do IPEA constataram que o acréscimo de 1% no estoque de armas, aumenta em 2% as vítimas fatais da violência. A chance de não morrer num assalto é de 99,95%, mas ela aumenta quando o sujeito tentar reagir ao bandido que está com a vantagem da surpresa. 15% dos mortos em assaltos em São Paulo são policiais militares, os profissionais com melhor treinamento de tiro do Brasil e um dos melhores do mundo. Seria melhor apostar numa política de segurança mais eficiente.

Quando critica as pasmaceiras e a corrupção de Lula e Dilma, Bolsonaro atinge outra boa parte do público – inclusive eu – que se cansou dos discursos e ideias que brotaram de intelectuais e os especialistas em tudo da esquerda. Maria do Rosário, quando secretária de direitos humanos, implicou duramente com uma das estrelas que contornam o brasão da Polícia Militar e representam lutas históricas ao longo de 185 anos de sua história. Era a estrela referente à participação da PM nas lutas da revolução de 31 de março de 1964, principalmente contra terroristas de esquerda que matavam policiais como os bandidos de hoje. A esquerda, com apoio de seu governo, via – e vê – o policial como agente da repressão e não como fator de segurança da sociedade. E tome-se crítica porque é incompetente para prevenir o crime ou porque está prendendo demais. Ponto para Bolsonaro, ele valoriza a polícia.

A esquerda brasileira foi desmoralizada quando a rapinagem de suas lideranças no governo desconstruiu seu discurso da ética. Os conservadores tímidos perderam espaço para o figurino de conservador aguerrido que Jair Bolsonaro está vestindo contra a esquerda tupiniquim. O que não vemos são propostas inovadoras no candidato que idealiza um pouco pra mais os anos de governo militar. Mas não deixa de ser interessante para o debate democrático a entrada mais vigorosa de posições conservadoras e de direita que representam boa parte do eleitorado..