Equívocos sobre a intervenção na segurança do Rio

Rio de Janeiro – Fuzileiros Navais participam de operação na favela Kelson’s, zona norte da cidade (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Com a intervenção na segurança do Rio de Janeiro criou-se uma situação inédita no Brasil, desde a edição da Constituição de 1988. O interventor poderá comandar, intervir, alterar tudo o que for necessário nos instrumentos institucionais da segurança: polícias civil e militar, bombeiros e setor penitenciário. Uma de suas primeiras medidas que nenhum dos governadores do Rio conseguiu: mandar recolher mais de três mil PMs que estavam em órgãos distantes do policiamento. Claro que o assunto foi controverso e surgiram interessantes considerações a respeito da intervenção:

1.”isso é uma inaceitável intervenção militar”. “Se fosse para intervir por que não designaram um civil?”. O interventor é militar, mas a intervenção não. É importante considerar que um general tem qualificações raras a um civil, como o planejamento e atuação em ambientes muito complexos, principalmente num contexto de grave crise de segurança que exige habilidade de comando.

2.”Se a crise persistia mesmo com um grande contingente de militares federais desde julho do ano passado de que adianta essa intervenção?”. Todas as operações anteriores eram travadas porque havia duas autoridades, o comando militar e o secretário da segurança. Com o interventor passa-se a ter um único comando que não precisa negociar com nenhuma estrutura da segurança.

3. O governo federal agora vai ter que intervir em vários estados como Ceará e Bahia onde há mais assassinatos do que no Rio? Ocorre que nesses estados, e em outros, há problema de ineficiências de gestão das polícias que não requerem tropas federais. A violência no Rio é mais complexa por ter centenas de comunidade submetidas ao governo paralelo dos traficantes e milicianos e enorme quantidade de armas de guerra nas mãos desses criminosos.

4. O ex-secretário do Rio Mariano Beltrame disse que o Estado deveria ter entrado com ações sociais logo após a instalação das UPPs para efeito maior de prevenção da violência, pensamento comum de vários sociólogos e especialistas em segurança. Vamos fazer um exercício mental: as ações sociais fariam os criminosos mudar de vida e procurar emprego? Os 95% de cidadãos de bem das favelas precisam dessas ações sociais para não virarem criminosos? Existem muito motivos para ações sociais em áreas violentas, mas elas não reduzem a violência. O Rio de Janeiro tem quatro vezes mais violência – o Ceará seis vezes – que São Paulo, porque aqui se investiu em qualificação e gestão da polícia. Quando a polícia faz bem o seu trabalho o crime cai e as agências sociais, inclusive comunitárias, têm mais resultados em suas ações..