Crimes inocentes

A ideia de crime organizado nos remete a duas situações emblemáticas: o tráfico de drogas e as maquinações reveladas pela operação Lava-jato, envolvendo bilhões e figurões do empresariado, da burocracia estatal e da política. Curioso que o crime para ser organizado precisa, em algum momento, da compra de conveniências de autoridades de todos os níveis, do policial da esquina ao juiz que decide convenientemente.

Estudo da Câmara dos Deputados em 2016 concluiu que o comércio de todas as drogas envolvia perto de R$ 15 bilhões. O tráfico é crime com penas pesadas e há grupos armados para defender, o que afeta muitos crimes violentos nas ruas. No entanto, pessoas que fumam um inocente baseado reclamam da insegurança, como se não houvesse a ligação drogas-violência.

Mas outros crimes lucram muito mais, com baixíssimos riscos e parecem inocente comércio pelas ruas de nossas cidades. O jogo é proibido desde 1946, mas há bingos abertos para supostas ações beneficentes, estima-se que existam centenas de cassinos clandestinos e perto de meio milhão de máquinas caça-níqueis pelo país, além de milhares de bancas de jogo de bicho que depenam pobres e movimentam em torno de R$ 20 bilhões, sem arrecadação de impostos ou contribuições trabalhistas. Por moralismo ingênuo políticos não regulam essa jogatina clandestina e, com isso, acabam patrocinando o crime organizado que cresce com leis fraquinhas e arrecadação robusta.

Agora vamos aos campeões do crime organizado, o contrabando e a pirataria, que faturam cerca de 100 bilhões de reais ao ano. Um exemplo da competência nos negócios da economia do crime: o Paraguai fabrica 70 bilhões de cigarros por ano e sua população consome 2,5 bilhões. O Brasil “importa” quase todo esse excedente e aqui 57% de todo cigarro fumado vem do país vizinho. A perda de arrecadação de ICMS é brutal, afetando os investimentos em infraestrutura dos estados e o custeio de ações sociais. São R$ 14 bilhões de impostos perdidos só com o contrabando de cigarros, mas a soma total, incluindo as falsificações feitas no Brasil, chegou a 160 bilhões em 2018. Há evidências de que até facções das drogas atuam nesse mercado onde é fácil obter altas somas para investimentos criminosos.

Para boa parte da população, é normal fazer uma fezinha no jogo do bicho, comprar eletrônicos na banca improvisada. Para muitos tudo isso parece contravenção inocente do coitado no trabalho informal, fingindo não querer saber que no mundo subterrâneo dessas práticas ruge a máquina criminosa impiedosa, articulada com inúmeros crimes.

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