‘Nudge’ da ordem e racionalidade

Imagine que você é administrador na área da saúde e queira promover a doação de órgãos através de declaração da pessoa ao preencher o formulário do RG ou da carteira de motorista. Existem duas frases a escolher, dependendo daquela que você imagina vai provocar mais adesão das pessoas. Frase 1: “quero doar órgãos”; frase 2: “não quero doar órgãos”. Você provavelmente imagina que as pessoas são racionais na escolha das alternativas e que a frase 1 acarretaria maior adesão de doadores. O comportamento humano não funciona bem assim. A prática mostrou que a frase 2 resulta em mais adesão, simplesmente porque as pessoas em geral preferem não tomar e anotar decisões psicologicamente desconfortáveis. Ou seja, não escolhendo, acabam concordando em doar.

O economista Richard Thaler ganhou o prêmio Nobel de economia de 2017 por suas ideias publicadas em livros e artigos demonstrando que a conduta das pessoas não é tão regulada por princípios de racionalidade. As pessoas não ponderam apenas alternativas racionais para escolher a opção que atendam melhor sua necessidade, mas são influenciadas por questões subjetivas. Um dos conceitos e instrumentos mais interessantes de suas ideias enfatiza a palavra nudge (pronuncia-se algo como nádji) que equivale ao popular “empurrãozinho”, ou aquela cotovelada gentil que você dá num amigo indeciso perante uma oportunidade. Os estímulos dos nudges podem ser do bem ou do mal”.

Um dos mais curiosos casos de nudge do mal foi observado numa experiência realizada na Holanda, mostrando os efeitos do estímulo da desordem no comportamento das pessoas: um envelope com 5 euros, com janela transparente, mostrando o dinheiro foi enfiado parcialmente na boca da caixa de correio em dois ambientes distintos: no ambiente com muro pintado e chão limpo 13% das pessoas pegaram o envelope e no ambiente com muro pichado e com papéis e cascas no chão foram 27% os que “roubaram” o dinheiro. O estímulo da desordem ao comportamento transgressor é tão forte que até as pichações e lixo na rua funcionam como nudge, encorajando pessoas a relaxar seu autocontrole e a contribuir para mais desordem, um passo para a instalação de crimes. Muitos prefeitos imaginam que contribuiriam para a redução de crimes em suas cidades, aumentando e armando sua guarda municipal para “enfrentar o crime”. As evidências são abundantes que ambientes, como os casos dos exemplos citados, bem administrados – retirando-se os estímulos do mal e incrementando os nudge do bem -, podem afetar positivamente o comportamento das pessoas..

 

Uma ideia sobre “‘Nudge’ da ordem e racionalidade

  1. Ze Vicente, a colocação é perfeita,o ambiente de desordem vai gerar desordem.
    O contrario é eficaz.
    O caminho é este , é uma forma de educação, ou simplesmente educação.

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