Julgar toda a PM pela exceção?

Um PM estressado foi flagrado pisoteando uma senhora deitada sobre o asfalto, numa dessas imagens chocantes que acabam viralizando pela internet. Muito antes da divulgação das imagens, os envolvidos foram afastados e indiciados criminalmente pela própria PM. O jornal Folha de São Paulo exibiu editorial do dia 15 de julho com o título “PM brutal”, mostrando que as mortes em confronto, principalmente por ações do patrulhamento aumentaram 26% em 2020. Não foi mencionado que o número de policiais mortos em confronto dobrou nesse período.

Juntar casos isolados, tornando-as representativas da estratégia e das práticas da instituição é uma conclusão precipitada e desonesta porque simplifica e distorce a complexidade e qualidade dos trabalhos da PM paulista que, nos últimos 18 meses teve contatos variados com mais de 40 milhões de pessoas, praticamente toda a população do Estado. Sim, ocorreram problemas graves de conduta de seus integrantes, tanto que 280 policiais foram demitidos nesse período – cerca de um a cada dois dias. Em compensação a quase totalidade de bons policiais retirou 85 mil bandidos das ruas, quase 500 por dia.

O trabalho policial, uma das atividades mais estressantes em qualquer país, tem no Brasil um dos piores ambientes para se trabalhar, onde aos graves problemas sociais se soma a impunidade impulsionada por nossas leis e justiça criminal. Apesar desses problemas nacionais São Paulo teve a mais extraordinária redução de violência, medida pelo crime mais grave, o homicídio, que caiu 82% ao longo dos últimos 20 anos. Para se ter uma ideia dessa progressão, na cidade de São José dos Campos morreram 48 pessoas por grupo de 100 mil habitantes no ano de 2000 e vinte anos depois – 2019 – foi registrado um décimo disso: 4,9. Isso mesmo, queda de 90%. Nos bairros periféricos da região metropolitana, assim como em quase todas as cidades do Estado a queda foi acima de 80%, salvando, principalmente, jovens, pobres e, em sua maioria, negros. Aliás, vidas negras importam numa instituição que teve como comandante em 1906 um coronel negro – José Pedro de Oliveira – apenas 18 anos após a abolição.

Com quase 80% do aparato policial do Estado a Polícia Militar teve papel decisivo nessa queda com a prisão de mais de dois milhões de bandidos. Esse resultado decorre de investimentos de qualidade: o soldado da PM formado em dois anos com 2.602 horas-aula, tem como destaques as 192 horas de direito penal, 96 horas de Direitos Humanos e Ações Afirmativas, 24 horas de mediação e resolução de conflitos. E para habilitar à direção estratégica todo coronel tem mestrado e doutorado em ciências policiais.

É ingênuo, injusto e até desonesto se julgar negativamente, a partir de exceções mesmo graves, uma instituição que mostra resultados notáveis em prol da sociedade, e que por isso, merece respeito.

Guerra contra a polícia

A morte do negro George Floyd na cidade de Minneapolis pela ação estúpida de um policial branco, provocou manifestações contra o racismo e também contra as polícias americanas em geral, como se aquele fato isolado representasse a verdadeira face da polícia, racista, cruel e despreparada. Não é bem assim. Nos confrontos das polícias americanas com suspeitos, 36,8% das mortes são de brancos e 23,4% de negros. Alguns prefeitos, como o de Nova York, planejam cortar parte do orçamento da polícia e investir em ações sociais. Medidas sociais sempre ajudam, mas, historicamente, fracassam quando pretendem substituir o trabalho preventivo da polícia e a violência acaba recrudescendo. A polícia americana, no geral, é muito eficiente, atua dentro da lei, e nos últimos 30 anos foi o principal fator na redução da violência no país.

Essa narrativa antipolícia costuma produzir o efeito inverso. Sob vigilância mais crítica da sociedade, a polícia prefere evitar exposição excessiva, ou seja, irá menos aos bairros onde se concentram minorias, abordarão menos suspeitos para evitar acusações de racismo e reduzirá sua presença preventiva nas ruas. Após o incidente com a morte de um jovem negro em Ferguson em 2014 e o ímpeto do movimento Black Lives Matter, os assassinatos de negros nos anos seguintes -2015 e 2016 – foram os maiores num retrospecto de 50 anos.

Não há como dissociar o ataque à polícia americana com o que ocorre no Brasil com as críticas sistemáticas às polícias brasileiras. Mas não há substituto para o duro trabalho dos policiais, principalmente para os policiais militares que estão mais expostos nas ruas, tanto à violência como ao coronavírus. A experiência nossa, assim como a americana, mostra que enfraquecer a polícia automaticamente fortalece os predadores nas ruas. Vamos a um exemplo dramático. Em novembro de 1992 um contingente de choque da PM invadiu o presídio do Carandiru numa ação desastrada que resultou na morte de 111 presos e acarretou críticas generalizadas e por longo período, não só àquela tropa envolvida na ação, mas para toda a PM. No ano seguinte, 1993, os efeitos da desmotivação começaram com a queda continuada da apreensão de armas que resulta de abordagens de suspeitos e prisões. A barbárie já tinha farejado o enfraquecimento da força policial e botou a violência nas ruas: quando a apreensão de armas caiu 33%, dois anos depois, os homicídios aumentaram 49,9%. Seis anos depois tinham aumentado 160%.

Nossa “guerra” é contra os criminosos e a favor da nossa força policial. Desrespeitar, criticá-los injustamente e humilhá-los é enfraquecer seu entusiasmo e sua força para nos proteger.

Soldados da terceira guerra mundial

No dia 8 de maio foi registrado o marco de 75 anos do término da Segunda Guerra Mundial, com a rendição da Alemanha, justo no momento em que estamos imersos em outra guerra mundial contra um inimigo invisível, sem alvo de conquista, sem ideologia e sem liderança. Aqui a guerra já havia sido declarada em fevereiro com as primeiras invasões do Coronavírus, avisando que a coisa ia ser feia. Mas o otimismo inconsequente de quem tinha um super carnaval para tocar não permitia projetar os cenários mais graves que consideram as piores consequências. Até médicos renomados de constante presença na mídia subestimaram a força do inimigo. A crise vem eclodindo como uma guerra de múltiplas frentes, uma delas a hospitalar, que lida com as consequências da infecção, principalmente pelas falhas de prevenção que depende do isolamento social, a única vacina conhecida até aqui.

No espaço mais aberto há profissionais do serviço público que não podem recusar a prestação de serviço, mesmo com os riscos inerentes ao trabalho. Policiais e bombeiros enfrentam novos desafios. A redução da mobilidade das pessoas e veículos fez desabar os furtos e roubos, mas nas periferias, onde o isolamento familiar é precário, houve incremento de homicídios e de violência doméstica. Em alguns estados com aguda dificuldade de gestão, como no Ceará, a pandemia e os homicídios explodiram. O que toda guerra ensina é que não se manda soldados para a batalha sem armas, munição e equipamentos básicos de proteção, mas estamos assistindo as deficiências de estratégias dos “generais” que comandam estados e municípios. As diferenças de planejamento e gestão neste momento crítico mostram a falta de equipamentos e de procedimentos não só para hospitais, mas também para policiais, bombeiros, guardas municipais e agentes penitenciários. A PM em São Paulo, que dispõe de um refinado sistema de planejamento, no final de março já tinha adquirido e estocado mais de 500 mil itens de proteção de seus policiais, enquanto no Rio empresários fazem vaquinha para comprar máscaras para os policiais em pleno pico da pandemia. Agora o agravamento da crise sanitária em algumas localidades como Maranhão, Ceará e Amazonas, está impondo medidas severas (lockdown) de restrição de circulação que vão demandar o esforço policial numa ação difícil, a repressão sobre cidadãos que aumentam o perigo de contaminação.

Com a troca do Secretário Nacional de Segurança Pública, entrando o coronel Carlos Alberto Araújo Gomes da PM de Santa Catarina, espera-se que o governo federal comece a prestar o suporte que os agentes da segurança pública necessitam neste momento crítico para seus trabalhos..

Nossos líderes na crise

No dia 25 de fevereiro foi detectado o primeiro caso de infecção por Corona vírus no Brasil. Já estamos com mais de 3.000 registros e vivemos um dos piores cenários com o alastramento da contaminação, a previsão de exaustão precoce do atendimento hospitalar, impacto monumental na economia do país e bate-bocas inacreditáveis do presidente Bolsonaro e governadores sobre medidas de mitigação e controle da crise. Diferentemente de países unitários como França e Itália, no Brasil a responsabilidade é compartilhada com estados em algumas áreas críticas, como saúde e educação, o que requer extraordinária habilidade e liderança do presidente para buscar consensos e coordenar medidas.

Praticamente todas as crises têm um foco inicial, como num incêndio, e se propaga com diferentes graus de velocidade e de ameaça. Quanto mais demora a resposta, mais a gravidade da crise acelera e desafia os recursos de contenção.

O sistema de saúde, apesar do então presidente Lula ter declarado que estava á beira da perfeição, não tem recebido a competente atenção que deveria para responder a crise sanitária do momento. Se há falhas na detecção e na correção nos primeiros passos, o período agudo de crise se instala a partir de negações defensivas e troca de acusações.

Esse Fla-Flu amplia o clima de instabilidade e reduz o potencial de controle e de resolução dos problemas, comprometendo as soluções e assustando a população. O problema não é apenas o pânico da população, mas também na elite dirigente que, infelizmente, coloca entre os fatores decisórios os ganhos e perdas políticos para a próxima eleição.

Nessas condições, as informações passam a ser distorcidas pelo pânico, pequenos dados são superdimensionados, informação relevante provoca mais ansiedade e é deixada de lado. Um pico de crise impõe enorme desafio que vai exigir alguém capaz de tolerar tensões, lidar com conflitos e aceitar ambiguidades da situação (por exemplo, manter autoridade e ao mesmo tempo buscar o diálogo) para encaminhar soluções que reduzam os danos e encaminhem a sociedade a uma progressiva retomada da normalidade.

Mas se quiser ver lideranças mais comprometidas, veja quem fala menos de si próprio, os que buscam fortalecer esforços, que se dedicam aos resultados sem fazer gracinhas, sem agredir adversários e, sobretudo, os que não estão preocupados com o custo político de suas decisões. Esta crise passará com enormes custos e do rescaldo veremos as verdadeiras lideranças que mobilizaram seu povo e recursos para acelerar resultados para efetiva contenção.

Capitão ou general?

Em 1970 o jornalista inglês Lawrence J. Peter escreveu um livro que fez muito sucesso (“Todo mundo é incompetente, inclusive você”) ao descrever o fato de que pessoas muito competentes tornam-se incompetentes quando elevadas a cargos superiores aos seus talentos, como um gerente financeiro talentoso que fracassa ao assumir o cargo de diretor executivo de uma grande empresa. As Forças Armadas têm critérios para selecionar e preparar seus dirigentes estratégicos para a área vital de proteger a nação, evitando os riscos de incompetentes. Oficiais chegam ao generalato após uma longa carreira de comandos de tamanhos variados, cursos cada vez mais intensos de preparação estratégica e seleção por talentos profissionais e integridade moral.

O presidente Bolsonaro saiu do Exército para se eleger deputado federal quando era capitão. Com as voltas que o mundo dá, o capitão reformado vira presidente e passa a comandar todos os generais, brigadeiros e almirantes das Forças Armadas. Suas frequentes posições por questiúnculas desgastantes que pouco ou nada melhoram a resolução dos grandes – estratégicos – problemas do país, têm suscitado a questão do preparo para o cargo presidencial. Claro que nada pode ser pior que o desastre do despreparo administrativo e moral dos anos Lula e Dilma que deu no que deu. Não basta a caneta Bic ou dizer que quem manda é ele, o presidente Bolsonaro.

O manual de liderança do Exército dos Estados Unidos (The U.S. Army Leadership Field Manual) deveria ser livro de cabeceira de Bolsonaro. Liderança militar tem importância crucial porque se trata de ganhar guerra e sustentar a defesa do país. Militar não tem plano “B” para a vitória. Lá se trata da liderança direta, aquela em que se conhece todos os subordinados, típica de tenentes, capitães e coronéis. Mas também fala da ciência dos generais, a liderança estratégica, quando se lida com contextos complexos, onde sobram áreas fora da autoridade do comando estratégico, como setores da sociedade, da política e da justiça que demandam negociação competente e passa por entendimento das posições diferentes. Líderes estratégicos desenvolvem habilidades para alcançar consensos e fortalecer coalisões.

Mas para a liderança do nível presidencial é importante que o detentor do cargo entenda seu forte valor simbólico, a representação para a população como principal ícone público. Suas posições, sua integridade, sua serenidade, os valores que defende servem de referência para largos segmentos da população e isso é uma enorme responsabilidade. A presidência é um escafandro tamanho GG para andar em grandes profundidades onde poucos conseguem ir, respirar é difícil e sair bem de lá depende de competências extraordinárias. Lula e Dilma se afogaram. O presidente Jair está começando, mas é bom entender como se anda nas profundidades do cargo que os eleitores lhe deram..

Alegria não pode virar tragédia

Uma decisão ocorrida dia 18 de junho no Superior Tribunal de Justiça deve alertar quem promove eventos coletivos, sejam manifestações, espetáculos artísticos e desportivos ou mesmo bailes em locais fechados como danceterias. Alerta também às autoridades a quem compete sua fiscalização.

Os magistrados entenderam que os proprietários e dois músicos que tocaram na boate Kiss da cidade gaúcha de Santa Maria apresentaram evidências suficientes de dolo eventual – quando se assume o risco de matar – pelo incêndio ocorrido no local há seis anos quando morreram 242 jovens e outros 636 ficaram feridos. Os réus, portanto, irão a júri popular. A enorme quantidade de pessoas no recinto fechado não foi controlada; os músicos usaram fogos de artifício durante a apresentação que incendiou materiais do teto, alastrando o fogo e produzindo espessa fumaça; os seguranças bloquearam a saída para ninguém sair sem pagar. Muitos outros responsáveis ficaram distante das punições: alguém fiscalizou, antes, as condições de segurança? Foi verificada a venda de ingressos de acordo com a lotação permitida? Havia algum plano básico de segurança, incluindo funcionários treinados? Tragédias geralmente decorrem da soma e combinação de pequenas falhas que eclodem com um fator-gatilho.

Multidões, qualquer uma, da Marcha com Jesus à Parada Gay, dos jogos de futebol às danceterias, embutem elevado poder de tragédia. Um incêndio em papéis picados durante o clássico River Plate e Boca Juniors na Argentina em 1968 provocou uma correria que resultou na morte de 74 torcedores. Em 1964 o juiz anulou um gol do Peru, contra a Argentina, o que gerou um tumulto que provocou a morte de 318 torcedores. Em 1989 na final da Copa da Inglaterra a superlotação do estádio acabou em tumulto que levou à morte de 96 torcedores do Liverpool; desde então foram eliminados os alambrados dos campos ingleses e a Fifa adotou a abertura de acesso para o gramado para esse tipo de emergência.

Na Inglaterra foi editada lei que obriga a todos os estabelecimentos que promovem eventos a ter um responsável pela segurança, devidamente credenciado por órgão público, após treinamento padronizado pelo governo, como ocorre aqui para habilitar motoristas. Essa responsabilidade é sobretudo das prefeituras, a quem compete regular o funcionamento de estabelecimentos, das condições estruturais de segurança a procedimentos preventivos e de cuidados com emergências instaladas, inclusive em eventos artísticos e culturais. Mesmo eventos de fé e de alegria precisam de competente seriedade nas medidas de prevenção e essa é responsabilidade indelegável das autoridades públicas estaduais e municipais que devem se entender para planejar a segurança dos cidadãos nas cidades..

Um verdadeiro tiro no pé

De 1980 a 2000 houve grande expansão das lojas de venda de armas no Brasil. Os assassinatos cresciam à taxa de 8% ao ano e só tiveram a trajetória macabra contida com a Lei 10.826 de 2003 que criou severas restrições à posse de armas. As armas não foram proibidas, mas além dos integrantes das forças de segurança as demais pessoas só podem ter acesso à arma, se comprovada sua efetiva necessidade. Com essa lei, conhecida como o Estatuto do Desarmamento, os homicídios foram contidos e a trajetória interrompida poupou mais de 130 mil vidas.

Mas qual é o problema de se liberar a compra e porte de armas? Com esse tipo de ideia o Presidente Bolsonaro publicou um decreto, criando grandes facilidades para a posse e o porte de arma, estendendo indevidamente o entendimento de “efetiva necessidade” do artigo 6º do estatuto que, por ser lei, não pode ser alterado por decreto. O decreto prevê, entre outros absurdos, que todo advogado (mais de um milhão no país), motorista profissional (mais de 900 mil), político com mandato (65.193), moradores de área rural com mais de 25 anos (18 milhões) e até jornalistas que cuidam da área policial, têm direito automático à posse e porte de arma, independentemente de provar sua efetiva necessidade. Mais um absurdo? Cada cidadão pode possuir até quatro armas e comprar até cinco mil munições para cada arma, ou seja, no limite pode comprar 20 mil munições por ano.

Há quem acredite que com tanta gente armada os criminosos arrefeceriam suas ações, com a queda da violência. A grande quantidade de policiais que morrem em assaltos mostra como é falsa a ideia de que basta uma arma para evitar a violência. Num levantamento feito com ocorrências registradas em São Paulo, o Instituto Sou da Paz constatou que, nas pessoas assaltadas que estavam armadas, 70% acabaram tomando tiro. A arma, tão eficiente para atacar torna-se um peso quase inútil em mãos amadoras. E ainda leva perigo para dentro de casa.

Mas outro grave problema da expansão das armas é que uma parte delas acaba sendo perdida, furtada ou roubada e vai abastecer os criminosos que se pretendia reduzir. Em outro levantamento feito com 14 mil armas apreendidas de assassinos e ladrões foi verificada que 60% delas foram fabricadas no Brasil e, originalmente, vendidas legalmente, mas acabaram nas mãos de criminosos.

Podemos imaginar a caçada que os criminosos vão fazer, obrigando advogados, motoristas, matutos da roça a comprar quatro armas e 20 mil balas por ano para serem usadas em todo tipo de crime violento. É incrível que no decreto não constam quase medidas de controle de todo esse armamento como chip de identificação nas armas e marcação dos cartuchos para identificar o comprador. Não dá para entender por que quem colocou a bandeira da segurança como principal mote de campanha quis liberar armas e munição a granel..

Escolas mais seguras no país

A tragédia ocorrida numa escola na cidade de Suzano no último dia 13 de março nos criou especial consternação pela preocupação com nossos filhos e netos em suas escolas onde se supõe estarão protegidos e também pela dor solidária em relação aos parentes e demais crianças traumatizadas com a experiencia direta naquela escola.

Não faltaram, pouco depois das primeiras notícias, aqueles que se aproveitam do momento para firmar posições num momento de dor e de luto. Políticos compareceram ao local e outros, incrivelmente, aproveitaram para reforçar obsessiva campanha pelo rearmamento da população, afirmando que haveria alguma chance de a tragédia não ocorrer se tivesse algum funcionário armado. Uma situação semelhante ocorreu em 1996 na Escócia, parte da Grã-Bretanha, quando um atirador matou 16 crianças e uma professora de uma escola primária. O choque foi tão forte que no ano seguinte as armas de fogo foram banidas do Reino Unido. Lá ocorreram 29 homicídios em 2018, como se no Brasil, três vezes maior em população, tivesse 90 pessoas assassinadas ao invés das 60 mil mortes ocorridas. Aqui acha-se que a solução seria armar funcionários. Imagine-se que metade das quase 200 mil escolas do país tivesse funcionários armados, sem o treino devido, e se envolvendo nos habituais conflitos nas escolas mais problemáticas onde alunos afrontam funcionários e professores com frequência.

Mas, afinal, nossas crianças estão ameaçadas nas escolas? Tragédias com mortes violentas em escolas ocorreram oito vezes nos últimos 17 anos no Brasil, uma a cada dois anos em quase 200 mil escolas espalhadas pelo país, o que torna o fato, apesar de gravíssimo, raro o suficiente para não justificar medidas excessivas de segurança. Existem problemas de segurança nas escolas, mas de outras dimensões como os furtos de objetos e equipamentos das escolas – que um sistema barato de alarmes e câmeras resolve – ou problemas de afronta de alunos aos professores e o inferno do bullying em que poucos alunos atormentam e traumatizam colegas. Mas é claro que sempre é bom pensar num conjunto de medidas de segurança, a começar do controle de acesso por meio de uniforme ou crachá, vigilância de pátios, corredores e banheiros. As polícias civil e militar devem, através dos efetivos de cada distrito policial, vigiar as escolas e as vias de acesso aos estabelecimentos de sua área. É importante que as escolas estaduais e municipais adotem código de conduta da disciplina escolar e discutam com pais e alunos as regras de convivência. Nos EUA, por exemplo, é motivo de expulsão do sistema público aluno que introduzir armas e drogas e agredir professor. Nos ambientes de ordem e proteção serão sempre melhores as condições para a atividade educacional..

Administrar riscos ou sucumbir

Você está preparado para o desastre, ou seja, a consumação do pior? Quando falamos em risco, fazemos referência à combinação de dois fatores: 1) probabilidade de ocorrer um incidente e 2) consequências acarretadas pelo incidente. As consequências de um infarto, por exemplo, podem matar e a probabilidade de ocorrer vai ser mais elevada se a pessoa investir no sobrepeso, na falta de exercício físico, em dietas suicidas combinadas com uso abusivo de álcool e fumo, além de exposição ao estresse. Com algumas contas você pode avaliar seu risco (probabilidade x consequências) e decidir o que vale a pena.

Essa ideia simples de risco ajuda a entender riscos e tragédias empresariais. Nas empresas, caçar riscos e gerenciar os mais danosos deve ser uma obsessão porque colocar uma organização na UTI pode ser mais fácil do que se imagina. Que o digam a Varig, a PanAm, G.Aronson, Mesbla,TV Manchete etc.

A produção de minério de ferro na região de Brumadinho, Minas Gerais, representava 2% da gigantesca produção da Vale, mas poucos diretores poderiam imaginar o tamanho do impacto do rompimento da barragem, em termos financeiros, de perdas de centenas de vidas, de indiciamento criminal de funcionários, de comprometimento internacional de reputação. Só não foi pior que a maior de todas as tragédias empresariais, o vazamento de gás de uma indústria de pesticidas da Union Carbide, na cidade de Bhopal, na Índia, em 1984 quando morreram de imediato quase quatro mil pessoas e estimadas outras 16 mil mortes decorrentes. Mas fora os acidentes da natureza – como tsunamis e inundações – os demais decorrem de ação humana por estratégias empresariais equivocadas, falhas grosseiras de processos produtivos ou de manutenção e, principalmente, de falta ou inépcia de programas de gerenciamento de riscos da organização.

Empresas grandes, médias e pequenas sucumbem a crises o tempo todo, sejam de alimentos estragados, de recall de veículos com defeitos, acidentes com funcionários ou clientes, escândalos de diretores envolvidos com desvios financeiros ou com a corrupção de agentes públicos, como estamos vendo na Lava Jato com a dilapidação do patrimônio de algumas de nossas maiores empresas. Os ataques de criminosos que vem ocorrendo no estado do Ceará, coroa anos de investimentos equivocados e maus resultados na segurança pública que resultaram na crise atual. Governantes e empresários devem apreender a administrar o potencial de crise de suas áreas relevantes, pois há aspectos comuns que devem ser considerados. Primeiro que toda crise emite insistentes sinais de que está se desenvolvendo; segundo, as organizações devem monitorar indicadores de risco de suas áreas críticas e preparar planos de contingência para serem acionados em tempo hábil se os esforços preventivos fracassarem..

Um general no comando da segurança?

João Dória, governador eleito de São Paulo, escolheu o general da reserva João Camilo Pires de Campos para secretário da segurança. Dória havia sinalizado que escolheria um policial para a pasta, mas, como era previsível, assim que o nome de um delegado foi cogitado para o cargo começou a ventilar o mal-estar na Polícia Militar. O mesmo ocorreria se fosse indicado um representante da PM com previsíveis protestos entre os policiais civis. Esse é um dos problemas de termos duas corporações para cuidar do mesmo problema: controlar a violência. Por esse fundamento de racionalidade, em praticamente todos os países do mundo existe uma só polícia para cuidar do patrulhamento uniformizado e da investigação, com um só comando em todas as unidades.

No Chile, os Carabineros fazem as duas funções, relegando para uma polícia especializada a investigação de crime organizado; na França existem duas polícias, mas a Polícia Nacional cuida da segurança das grandes cidades e a Gendarmerie, militarizada e com 60 generais, faz todo o serviço policial nas pequenas cidades, rodovias e fronteiras. Nas polícias do mundo, seja a polícia municipal nos Estados Unidos, as polícias estaduais da Alemanha ou as polícias nacionais da França, o comando de todas as atividades policiais será dado, é claro, a policiais graduados de suas próprias instituições.

No Brasil o custo de termos duas polícias é altíssimo por duplicação de estruturas e por induzir baixa cooperação e até rivalidades explícitas que comprometem a eficiência do sistema policial. Com essa irracionalidade potencial a solução tem sido chamar alguém de fora da polícia para, ora vejam, dirigir as polícias. A direção da segurança pública pouco depende de conhecimentos jurídicos ou sociológicos. O sucesso dessa direção depende, fundamentalmente, de competência de gestão, algo que não se aprende nos bancos das faculdades sociais ou de direito.

Generais no Brasil são profissionais altamente preparados para gestão de problemas complexos, principalmente em contextos de crise, por razões óbvias. Além do preparo intenso, acadêmico e da vivência em contextos bastante diversos no país, oficiais só ascendem aos níveis mais elevados se provados em integridade em sua vida profissional e até pessoal, como é o caso do General Campos que assumirá a chefia das polícias paulistas. Tolice imaginar que o futuro secretário vá impor algum padrão de guerra nas polícias, pois seu preparo inclui sofisticada capacidade de identificar os problemas críticos de sua área de responsabilidade e definir os recursos e estratégias para resolvê-los. Não tendo as crises da maioria dos estados, a perspectiva para a segurança em São Paulo é bastante positiva, principalmente se o governo federal empreender as prometidas medidas de redução da impunidade..