O efeito Lúcifer nas pessoas

O nome Lúcifer pode despertar algum mal-estar em pessoas religiosas mais sensíveis. Mas esse nome remete a fascinantes pontos da história e da mitologia das religiões calcadas na bíblia e outros escritos. Os hebreus teriam adotado esse anjo, Heylell, da mitologia dos babilônios de 600 anos antes de Cristo, depois traduzido como Lúcifer da raiz latina lux fero, que significa portador da luz. Lúcifer teria sido o anjo predileto de Deus, mas o desobedeceu por não aceitar louvar o homem no sexto dia da criação, se rebelou e teria sido expulso da corte celestial com seus adeptos. Lúcifer era um anjo bom, não era do mal. Como e por que foi para o lado escuro da força? Essa parábola coloca questões sobre a natureza humana: até que ponto somos anjos e em que momento podemos nos transformar em seres do mal?

O psicólogo social Philip Zimbardo da prestigiosa Universidade Stanford, EUA, fez experimentos assustadores mostrando como pessoas comuns podem se tornar aproveitadoras, ladras, molestadores sexuais e perigosas quando lhes são oferecidas oportunidades para praticar o que leis e sociedades condenam. Vamos dar um exemplo bem claro: o caminhão tombado na estrada saqueado rapidamente por moradores e até por motoristas de veículos caros. Ou lembre de famílias de gente, digamos normal, saqueando lojas durante as greves da polícia ou após a devastação do furacão no Caribe ou em Miami. A operação Lava Jato está mostrando legiões desses anjos caídos do “paraíso” do mundo político, muitos deles religiosos praticantes que se locupletaram com dinheiro sujo.

Seriam raras as pessoas sujeitas a transgredir nossos códigos, crenças e padrões sociais de civilidade? Para Zimbardo apenas algo como 10% das pessoas seriam as extremamente resistentes às tentações e oportunidades. Para 90% – pobres, ricos e remediados – tudo depende da força da tentação e da oportunidade para fazer. Para outro pesquisador israelense 7,5% seriam os resistentes e outros 7,5% os que vivem para transgredir habitualmente, algo como 15 milhões de brasileiros. É assustador. Por essa e outras é que as sociedades precisam criar instrumentos dissuasórios eficientes para conter essa latência de transgressão do ser humano: sólidos valores culturais, códigos de proibições e penas para os transgressores e, claro, instrumentos como polícias e juízes para servir de alerta sobre as sanções e agir sobre os transgressores para afastá-los e servir de exemplos aos demais.

Portanto cuidado se você já comete pequenas transgressões sem se importar, se não vê o sofrimento de alguém prejudicado, se dilui sua responsabilidade na multidão do “todo mundo faz isso”, se curte ódios à torcida ou partido adversários, se fica indiferente ou tolera a maldade. Você pode dar de cara com seu Lúcifer no espelho do banheiro.

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