Posturas e imposturas no debate da segurança

Jair Bolsonaro, pretenso candidato à presidência nas próximas eleições, tem dito coisas que muitos querem ouvir. Mas nem sempre o que querem ouvir é bom para o país. Um dos grosseiros equívocos é seu enfático apoio ao projeto que visa liberar a posse de armas. O discurso parece lógico: já que o governo não consegue garantir a segurança pelo menos vamos permitir à população se armar para sua própria defesa. O Brasil é um dos campeões do mundo em assassinatos e não estamos falando de ladrões que matam nos assaltos (5% das mortes), mas dos idiotas que matam uma única vez, simplesmente porque tinham uma arma para substituir o sopapo. As pesquisas feitas aqui no Brasil por técnicos do IPEA constataram que o acréscimo de 1% no estoque de armas, aumenta em 2% as vítimas fatais da violência. A chance de não morrer num assalto é de 99,95%, mas ela aumenta quando o sujeito tentar reagir ao bandido que está com a vantagem da surpresa. 15% dos mortos em assaltos em São Paulo são policiais militares, os profissionais com melhor treinamento de tiro do Brasil e um dos melhores do mundo. Seria melhor apostar numa política de segurança mais eficiente.

Quando critica as pasmaceiras e a corrupção de Lula e Dilma, Bolsonaro atinge outra boa parte do público – inclusive eu – que se cansou dos discursos e ideias que brotaram de intelectuais e os especialistas em tudo da esquerda. Maria do Rosário, quando secretária de direitos humanos, implicou duramente com uma das estrelas que contornam o brasão da Polícia Militar e representam lutas históricas ao longo de 185 anos de sua história. Era a estrela referente à participação da PM nas lutas da revolução de 31 de março de 1964, principalmente contra terroristas de esquerda que matavam policiais como os bandidos de hoje. A esquerda, com apoio de seu governo, via – e vê – o policial como agente da repressão e não como fator de segurança da sociedade. E tome-se crítica porque é incompetente para prevenir o crime ou porque está prendendo demais. Ponto para Bolsonaro, ele valoriza a polícia.

A esquerda brasileira foi desmoralizada quando a rapinagem de suas lideranças no governo desconstruiu seu discurso da ética. Os conservadores tímidos perderam espaço para o figurino de conservador aguerrido que Jair Bolsonaro está vestindo contra a esquerda tupiniquim. O que não vemos são propostas inovadoras no candidato que idealiza um pouco pra mais os anos de governo militar. Mas não deixa de ser interessante para o debate democrático a entrada mais vigorosa de posições conservadoras e de direita que representam boa parte do eleitorado..

 

O efeito Lúcifer nas pessoas

O nome Lúcifer pode despertar algum mal-estar em pessoas religiosas mais sensíveis. Mas esse nome remete a fascinantes pontos da história e da mitologia das religiões calcadas na bíblia e outros escritos. Os hebreus teriam adotado esse anjo, Heylell, da mitologia dos babilônios de 600 anos antes de Cristo, depois traduzido como Lúcifer da raiz latina lux fero, que significa portador da luz. Lúcifer teria sido o anjo predileto de Deus, mas o desobedeceu por não aceitar louvar o homem no sexto dia da criação, se rebelou e teria sido expulso da corte celestial com seus adeptos. Lúcifer era um anjo bom, não era do mal. Como e por que foi para o lado escuro da força? Essa parábola coloca questões sobre a natureza humana: até que ponto somos anjos e em que momento podemos nos transformar em seres do mal?

O psicólogo social Philip Zimbardo da prestigiosa Universidade Stanford, EUA, fez experimentos assustadores mostrando como pessoas comuns podem se tornar aproveitadoras, ladras, molestadores sexuais e perigosas quando lhes são oferecidas oportunidades para praticar o que leis e sociedades condenam. Vamos dar um exemplo bem claro: o caminhão tombado na estrada saqueado rapidamente por moradores e até por motoristas de veículos caros. Ou lembre de famílias de gente, digamos normal, saqueando lojas durante as greves da polícia ou após a devastação do furacão no Caribe ou em Miami. A operação Lava Jato está mostrando legiões desses anjos caídos do “paraíso” do mundo político, muitos deles religiosos praticantes que se locupletaram com dinheiro sujo.

Seriam raras as pessoas sujeitas a transgredir nossos códigos, crenças e padrões sociais de civilidade? Para Zimbardo apenas algo como 10% das pessoas seriam as extremamente resistentes às tentações e oportunidades. Para 90% – pobres, ricos e remediados – tudo depende da força da tentação e da oportunidade para fazer. Para outro pesquisador israelense 7,5% seriam os resistentes e outros 7,5% os que vivem para transgredir habitualmente, algo como 15 milhões de brasileiros. É assustador. Por essa e outras é que as sociedades precisam criar instrumentos dissuasórios eficientes para conter essa latência de transgressão do ser humano: sólidos valores culturais, códigos de proibições e penas para os transgressores e, claro, instrumentos como polícias e juízes para servir de alerta sobre as sanções e agir sobre os transgressores para afastá-los e servir de exemplos aos demais.

Portanto cuidado se você já comete pequenas transgressões sem se importar, se não vê o sofrimento de alguém prejudicado, se dilui sua responsabilidade na multidão do “todo mundo faz isso”, se curte ódios à torcida ou partido adversários, se fica indiferente ou tolera a maldade. Você pode dar de cara com seu Lúcifer no espelho do banheiro.

As forças armadas podem ajudar na segurança pública?

Foto: Agência Brasil

A crise da segurança no Rio de Janeiro com o incremento dos assassinatos, da morte de policiais e roubos acabou demandando o apoio de forças federais que acorreram ao estado com promessa de permanecer até o final de 2018, ao custo de dois bilhões de reais.

A pergunta que se faz é se esse reforço de quase oito mil militares e policiais federais reduziria a violência local. E se esse tipo de reforço resolveria em outros locais. São Paulo é o único estado que nunca solicitou apoio federal para a segurança. Tenho mais que palpite sobre isso, tenho certeza de que não vai funcionar, simplesmente porque a maioria dos problemas da violência só é afetada por esforço policial.

Pelo menos 80% dos crimes que afligem o carioca – aliás, como em qualquer lugar – nada têm a ver com o crime organizado, a preocupação central dos ministros da justiça e da defesa. Durante os jogos olímpicos havia o dobro de efetivos e recursos militares no Rio e, no entanto, os assaltos cresceram 66% no período. As operações conjuntas até aqui foram fiascos desconcertantes.

Representantes do governo federal falam em aporte de inteligência como se fosse uma substância milagrosa trazida dos laboratórios do planalto, mas não explicam por que diabos essa inteligência não impediu que entrassem 11 mil fuzis de guerra para os traficantes, o fluxo contínuo de toneladas de drogas e o domínio de mais de 800 (repetindo: 800) comunidades onde o estado não pode atender cidadãos à mercê de lideranças criminosas.

Forças armadas, no mundo todo, são preparadas para momentos extremos quando a destruição do inimigo é a alternativa para a segurança das tropas e a vitória no alcance dos objetivos militares. Blindados militares nas avenidas não intimidam ladrões das ruas ou traficantes no alto dos morros.

A Constituição prevê a convocação dos militares na chamada operação da garantia da ordem estritamente para momentos excepcionais de quebra da ordem pública, como na greve da PM no estado do Espírito Santo, onde ocorriam saques em lojas, o transporte público não saiu das garagens e foram afetados o funcionamento do Judiciário e até de hospitais públicos e escolas.

Isso é muito diferente do banditismo comum, dos assaltos, furtos e assassinatos nas ruas que dependem de conhecimentos, experiência acumulada e tecnologias próprios do trabalho policial. Infelizmente somente a própria polícia carioca pode resolver a crise que ela mesma ajudou a criar por incompetência de gestão e envolvimento de agentes com a proteção aos criminosos. É melhor que os governos cuidem de sua polícia e a sociedade prestigie seus policiais porque não há socorro possível fora de seu trabalho..